Páginas

O direito à dor



Quando abri os olhos, apenas reflexos esparsos de uma luz fria e ao longe o som do atrito metálico de alguns objetos. O odor misturava  álcool, éter  e sangue. “Não é possível! Mais uma vez... não deu certo”. Foi o primeiro pensamento que sobreveio após os lampejos da minha consciência me indicarem que aquilo ali era um hospital. Um hospital! Inconfundivelmente um hospital! Como poderia não reconhecer este cenário com que fui brindada desde a infância? O jaleco branco do médico é minha Madeleine.
Minha mãe era enfermeira na cidade pequena em que nasci. Trabalhava em um hospital de médio porte. Cresci  sentindo o perfume da dor do outros. Esparadrapos, gazes e seringas eram brinquedos para mim. Meu imaginário sempre permeado de histórias sobre febres, veias, cortes, feridas, pus, morte e solidão. Minha mãe falava muito sobre o abandono e a tristeza que era morrer sozinho. Apodrecendo numa cama, sendo tomado por feridas e mágoas diante do silêncio constrangido de parentes que rareavam as visitas a cada dia.  Enojavam-se diante do moribundo e procuravam aliviar ao máximo as suas culpas nas visitinhas ao estilo “pra não dizer que não falei das flores”, laxante de consciência. “Não é fácil ser um moribundo” dizia minha mãe. “Quero morrer sem dar trabalho, como sua avó”, emendava melancólica e resignada.
Minha vó materna morrera antes de eu nascer. Foi parada cardíaca, segundo minha mãe, dormiu e não amanheceu. O rosto sereno sugerira a ela a placidez de uma morte calma, daqueles que saem à francesa, elegantemente, sem deixar rastros. Ao contrário de meu avô, que carcomido pelo câncer e pelos pecados, gemeu e agonizou até o último suplicante suspiro de seu pulmão canceroso. Morreu fedendo. Sua partida empesteou o ambiente assim como sua vida contaminou a alma daqueles que com ele foram obrigados a conviver. Tenho muitas contas a acertar com esse velho descendente de nazistas!
Não conheci, portanto, meus avós maternos. Embora carregue um pouco de suas maldições hereditárias entranhadas no meu DNA, assim como herdei também da minha mãe  a melancolia, a solidão e a intimidade com a morte.
_  Oi, oi está me ouvindo? Fala comigo! Você me ouve?
O zunido foi se tornando mais nítido e distingui a voz do médico avisando que atravessaria uma maldita cânula pela minha garganta até o estômago. Os contornos opacos e indefinidos sugeriam um pronto socorro. Eu saberia diferenciar um pronto socorro de qualquer outra parte de um hospital. Não só porque cresci em um hospital e frequentei vários em diferentes momentos da minha vida, mas porque o ritmo ansioso, a falta de paciência e o mau humor de médicos de final de plantão são inconfundíveis em um pronto socorro. Já vivera essa parte outras vezes. Resolvi fechar os olhos e tentar entender como foi que viera parar ali novamente. Minha mente embaralhada acionou uma sucessão de eventos indistintos, minha mãe, minha vó e sua morte linda... o sangue na escada... as vozes...você tem que ser mais forte... mais forte... aqui não há espaço para fracos... não há lugar para você... você nunca termina... você nunca conclui nada... você foge... foge... não adianta se esconder...  não adianta chorar...
- Feliz aniversário, meu amor!
Abri os olhos esperando encontrar o rosto carinhoso de minha mãe.  A doçura daqueles olhos verdes que escondiam um labirinto, a proteção daquele abraço quente que espantava os fantasmas da noite e me convidava a viver e a respirar o dia brilhante. Aquele bolo caseiro confeitado, desajeitadamente, o guaraná no copo. Aquele dia especial, em que eu era maior e o mundo insignificante. A frase “Há... anos você estava na minha barriga... eu escutava Orlando Moraes e imaginava como você seria...”
- Feliz aniversário... abro os olhos novamente e vejo as lágrimas transbordando dos olhos verdes... mas era o Edu e eu já conhecia aquele olhar. Era meu aniversário... Eram trinta anos. Era mais do mesmo...  a sobrevivência me impunha a dor outra vez. Agora tudo se movia ao meu redor... estava sendo retirada dali. Quando uma voz interrompe o processo em curso...
- Feliz aniversário... quando estiver melhor vou te levar à oncologia para você descobrir o que é dor.
Era o médico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário