QUEBREI O ESPELHO ... O BLOG SE DESPEDE
Por semanas seguidas, depois da mudança definitiva, eu tive pesadelos. Em vários momentos, acordava, durante a madrugada, acreditando que teria que fazer as malas novamente e abraçar o passado que me sorria irônico “eu avisei que não daria certo”. Era comum levantar, meio sonâmbula, e começar a enfiar roupas na mala e desespero no coração. No entanto, a luz das precoces manhãs deste lugar logo esvaziava as minhas sombras de qualquer significado maior. Os meus medos não encontram mais a quem dar as mãos, insustentáveis, eles despencaram pelo abismo com o qual flertei por quase dois anos. E quando meus pés afundam na areia e encontram o fluxo vital do mar é que eu me sinto longe, muito distante e protegida das margens daquele precipício devastador. Tudo aquilo ficou apenas nas margens, varrido para sempre para fora do meu caminho.
A vida neste lugar é muito tranquila, talvez seja por isso que custei a acreditar. E, sem idealizações (já que ser humano é circunscrito as suas limitações em qualquer lugar), sinto uma energia muito positiva que emana de uma intensa vontade de viver. Eis a grande diferença: aqui a vontade de ser feliz supera a necessidade de competir. A propensão à alegria coloca todos os problemas no seu devido lugar e nada tem tamanho maior do que merece ter . As cores saltam vibrantes de todos os lugares, os sorrisos brotam fáceis e a paisagem...ah a paisagem! Ela nos diz todos os dias que precisamos de bem menos para ser feliz: um passeio de bicicleta na praia, um sorvete de mangaba, um mergulho no Velho Chico, caranguejos com amigos, uma rede, um bom livro. Tudo isso tem um sabor incomparável, sabor de superação.
Mas foi uma batalha titânica para chegar até aqui. Uma luta desdobrada. Se por um lado tinha que me desvencilhar dos dedos que apertavam a garganta por outro precisava vencer meus próprios fantasmas que insistiam em me desacreditar nos dias de sol, nos sorrisos desinteressados, na alegria gratuita dessa gente. Ainda não sei qual inimigo é o pior: aquele que nos mostra a face irascível e a capacidade inumana de fazer o mal ou aquele que, sorrateiro, se esconde dentro da gente e obriga a inteligência a trabalhar em função de sua visão disforme e monstruosa do mundo. Talvez seja este a extensão daquele. Talvez. Mas isso não importa mais. Estão ambos vencidos, consumidos, desintegrados para mim.
Acredito que por me sentir assim, tão imune a todo esse veneno, que não me identifiquei mais no ESPELHO SUBJETIVO. Ele já não reflete mais meu estado de espírito, não traduz mais os meus anseios. Embora extremamente transparente, ele é melancólico, dolorido, sorumbático. Eu estou em reconstrução, não quero mais ruínas. Como diz o poeta, preciso somente dos olhos verdes da esperança.
A ideia do blog veio depois de uma conversa com a minha psicóloga. Eu precisava compreender a dimensão exata do que sentia, então ela sugeriu que eu escrevesse. Não, ela falou em diário, eu é que optei pela versão web. Também fiz outras opções como a de escolher entre os medicamentos ou meus neurônios, entre domar as crises à unha ou viver anestesiada e mumificada, entre ficar ou partir... inúmeras decisões... algumas acertadas, outras nem tanto, umas precipitadas outras atrasadas...todas com consequências. O ESPELHO foi fundamental para minha travessia, mas agora já não cabe mais no mapa. Assim como eu, ele irá se transmutar. Uma face nova para uma vida nova. PRECISO DE NOVOS ESPELHOS...
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