O QUE VOCÊ DIRIA AO SEU MELHOR AMIGO SE ELE ESTIVESSE DECIDIDO A ABRIR MÃO DA SUA PRÓPRIA VIDA?
A primeira causa de morte por atos de violência no mundo não são os acidentes de trânsito, os homicídios nem os conflitos armados, mas o suicídio (CRHISTANTE, 2010, p 33). Esses dados intrigantes foram revelados em outubro de 2002, em Bruxelas, num encontro da Organização Mundial de Saúde (OMS) para divulgar as conclusões do Relatório Mundial sobre Violência e Saúde. Guy Verhofstadt, então ministro da Bélgica, ao expô-las (aparentemente pela primeira vez) na cerimônia, não conteve o susto e, abandonando a formalidade, indagou perplexo: “É isso mesmo?”.
A incredulidade e embaraço do ministro belga diante da insurgência de um tema que perambula na invisibilidade social e, amiúde, transgride os limites do silêncio que lhe é imposto compõe o quadro temático do romance O céu dos suicidas (2012) de Ricardo Lísias. Nessa obra com traços autobiográficos, Lísias (2012) empresta seu nome ao narrador da trama que deambula pelo romance numa ansiedade agônica deflagrada pelo suicídio de seu melhor amigo André. Trata-se de uma perda não fictícia, correspondente ao trauma real vivido pelo autor quando perdeu seu colega de faculdade em uma morte autoinflingida e anunciada, em 2008.
Sob a roupagem de um perito em coleções e antigo colecionador, o narrador mortificado pela culpa de não ter percebido os sinais evidentes do destino do amigo e, portanto, ter lhe negado a ajuda necessária, afunda-se numa crise existencial que o arrasta ao terreno oscilante da experiência limítrofe entre a loucura e razão. Meticuloso e autocontido, o colecionador, catalogador e ordenador obstinado de relíquias choca-se com a irredutibilidade da morte e se desestrutura por completo: “Nunca tinha gritado tanto. Trato os meus problemas em silêncio. Eu os organizo e reorganizo na cabeça como se fosse uma coleção, até solucioná-los” (LÍSIAS, 2012, p. 23). Para quem superestima o controle, o encontro com o inexorável pode assemelhar-se a ânsia do abismo. Despossuído de si, o narrador aborda o universo complexo do suicídio por meio da uma pergunta que o tortura: Os suicidas vão para o céu?
Mesmo desprendido de valores religiosos, Lísias persegue essa questão aflitiva em uma tentativa desesperada de elaborar o luto pela morte de André, de expiar a culpa e de retomar o controle de si. Contudo, os encontros com sacerdotes e representantes de diferentes segmentos religiosos, a quem o narrador dirige sua angústia, apenas reforçam o preconceito e o silêncio a que estão condenados aqueles que decidem dar cabo da própria vida. Sem a resposta que procura e à beira de um colapso, o narrador perambula pelas ruas e praças, bradando impropérios, inteiramente descontrolado. Todavia, quanto mais grita, em meio à multidão, menos é ouvido. Sua dor passa despercebida, seu desespero é, completamente, ignorado. Ele é submetido à dolente invisibilidade daqueles que sofrem as dores da alma, a mesma condição fantasmagórica pela qual André passara antes de se enforcar: “Tenho feito descobertas: quando a gente grita na rua, ninguém repara.” (LÍSIAS, 2012, p. 45)
Perplexo com a apatia das pessoas e com sua própria insensibilidade diante da condição humana do outro, Lísias percorre os espaços da exclusão: as clínicas psiquiátricas em que André havia se internado ao longo dos anos. Refazer a trajetória do amigo era uma forma de compreender como aquele processo medonho da desestruturação psíquica era silenciado e solenemente abafado pelo fluxo intermitente da vida cotidiana. O tabu em torno do suicídio impede o narrador de lidar com naturalidade com a questão do luto e reforça sua culpa diante do ocorrido. Sufocado por esse sentimento que o impede de respirar, ele acaba por descarregar a tensão em surtos de agressividade gratuita direcionada à família, aos amigos e a desconhecidos.
O céu dos suicidas (2012) de Lísias é um dos poucos romances contemporâneos que ousam tocar nesta ferida: a morte de si. Há tempos escritores dedicam seus escritos à morte e a violência e demais vicissitudes humanas e, mesmo havendo uma considerável porção de obras em que o suicídio aparece como meio de dar fim a este ou aquele personagem, mas são poucas as que o tem como protagonista. A ausência do tema no escopo literário sugere a dificuldade de se lidar com um assunto tão espinhoso concomitantemente tão desafiante, como elucida Vincent (1999, p.345) “ O suicida pode ser tido como desafiante absoluto. Desafio aos vivos por recusar uma existência que ele julga insatisfatória ou intolerável. [...] Desafio a Deus, já que nega sua própria Criação”.
Todavia, o romance não tenta indicar quais caminhos labirínticos levaram André a prescindir da própria vida. A questão central é o ponto de vista dos sobreviventes. Aqueles que tem lidar com a perda e com a culpa de não haver apreendido os sinais da morte do outro, ou tê-los percebido mas não conseguido evitar o fim. O silêncio persistente que envolve o tema, a solidão na qual estão mergulhadas as vítimas, familiares e amigos do suicida.
Segundo Antonio Candido (2004), toda obra de arte é um diálogo aberto estabelecido entre a subjetividade de um autor e as condições sociais e naturais da época e local na qual é produzida. Portanto, os elementos externos agem de tal forma sobre a obra artística que acabam exercendo importante papel na constituição da estrutura, consequentemente esses tornam-se elementos internos dessa mesma obra. Baseando-se nisso, o objetivo deste estudo é analisar o modo como o romance de Lísias (2012) mimetiza o invólucro de preconceito que cerca a desafiante questão do suicídio e, ao mesmo tempo, observar como a obra literária, em sua constituição, responde a esse desafio social contemporâneo.
Assinar:
Postagens (Atom)
