QUANTOS LIVROS CABEM EM UMA VIDA?
Dizem que apreender uma vida como uma sucessão de fatos ordenados linearmente no tempo e encadeados logicamente, numa infinita causalidade, é uma ilusão. Chama-se Ilusão Biográfica, título de um livro do sociólogo francês Bourdieu. Consiste, basicamente, em compreendermos nossas vidas como uma história, com início, meio e fim. Uma narrativa em que somos os protagonistas e tudo o que acontece tem uma razão de ser. A vida como história não passaria de uma fantasia, uma tentativa de atribuirmos sentido ao caótico fluxo descontínuo do universo. Por isso quero fugir aqui daquela lenga-lenga de “minha vida dá um livro” ou a “história da minha vida” e optar por contar “ a história ou as histórias NA minha vida” e de como me tornei um TEXTO. Um texto hermético e intrincado para mim mesma. Para conseguir lê-lo procurei ajuda. A intérprete de textos vivos me perguntou até que ponto eu distinguia FICÇÃO e REALIDADE. Acho que nunca o fiz. De qualquer forma, resolvi inventariar os meus mais recônditos encontros com a literatura a fim de saber quantos livros podem caber em uma vida.
Sempre fui leitora, mesmo sem saber ler. Minhas mais remotas memórias de infância me lançam sempre em frente a um livro que eu lia, ainda que sem dominar o código. Fazia aquele jogo performático, tão comum nas crianças, de folhear o livro e contar uma história em voz alta, a partir das figuras ali presentes, com o dedinho deslizando pelas frases, acariciando as palavras. Realizava verdadeiros saraus de leitura imaginária. Não sei bem quando a minha ficção se tornou realidade. Talvez entre os 4 ou 5 anos de idade. Só sei que ela perdeu parte do encanto. As histórias que eu criava no meu teatro literário pareciam infinitamente mais interessantes que aquelas que eu era obrigada a ler no início da alfabetização. “Paulo pescou o peixe. O peixe era preto.” Aquilo era muito chato. E eu logo descambava para o meu refúgio imaginário: o peixe virava sereia, o homem virava um príncipe ou coisa parecida. A professora dizia que eu era distraída e vivia no “mundo da Lua”. Não era da Lua, era dos livros. Dos livros de verdade, vim saber depois.
Quando me livrei dos insuportáveis exercícios silábicos e consegui minha independência literária, fui muito feliz. Já podia ir à biblioteca e escolher o livro que quisesse, pela capa, pelo cheiro, pela textura, pelas figuras coloridas. O portal mágico, antes fechado, voltou a se abrir. Uma nova relação se nasceu entre mim e os livros. Agora mais madura: estava disposta a ouvir o que eles tinham a me dizer. Não lhes imporia mais a minha versão dos fatos. Mas me tornei possessiva. Passei a me apropriar das histórias, devorá-las e fazê-las minhas. Minhas Histórias. Antropofagia mesmo. Misturava os tempos e espaços, autor, narrador e personagens. Criei um imenso mosaico polifônico dentro de mim. E assim a literatura e a vida se tornaram uma coisa só. Ler era a minha forma de decifrar o mundo e, principalmente, de desconfiar da realidade. Sim, desconfiar mesmo, passei a ver sentidos latentes em tudo e logo saí da leitura das linhas para a leitura das entrelinhas, das lacunas, dos não-ditos, dos interditos mais depois.
Lembro-me de que um dos primeiros livros que me levaram a esse extenuante exercício de questionamento da ordem, que eu faria a vida inteira, foi o fabuloso MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS da Sylvia Orthof. Eu tinha só 6 anos e estava encantada com aquela ovelhinha subversiva que decidira não mais fazer o que não queria, só porque todo mundo queria que ela fizesse. E a ovelha Maria se juntou à lesma Lúcia de LÚCIA JÁ-VOU-IIIIIIINDO, da mesma autora, e as duas bagunçaram tudo o que as princesas dos contos de fadas haviam arrumado. A Sylvia Orthof também foi responsável por certo estresse da minha mãe quando eu li TERESA MANIA-DE-LIMPEZA e passei a identificá-la com minha progenitora. Intuitivamente, também associei o trabalho doméstico à alienação feminina e me recusei veementemente a aprender qualquer coisa desse ofício. Não aprendi a passar, cozinhar e a limpar. Até hoje sei apenas me virar e nunca agradei sogra nenhuma. Eu era Maria, Lúcia mas não seria Teresa e definitivamente não fui. Mais tarde, Simone Beauvoir e o SEGUNDO SEXO matariam Teresa de vez dentro mim. Isso me trariam conflitos sérios com a família mineira-machista-patriarcal-tradicional do meu primeiro marido e comprometeria para sempre meu tão fragilizado instinto materno.
E foi isso ou uma incipiente sensibilidade estética que me levaram a abandonar a leitura de POLYANA MENINA e POLYANA MOÇA na página três. Apesar da perseverante presença dos livros nas listas de leitura obrigatória do Colégio La Salle, instituição catolicíssima em que estudei. No lugar da cartilha da boa moça, optei por CHRISTIANE F. 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA. Eu tinha 13 anos e a imagem da garota desmaiada em um fétido banheiro público de Berlim com uma seringa de heroína cravada no braço foi uma experiência tão devastadora que por si só já foi suficiente para sanar qualquer curiosidade que eu poderia ter tido, em relação às drogas, durante toda a minha adolescência e juventude. Levei muito tempo para superar o CHRISTIANE F. Li e reli várias vezes, muitas delas ao som do Legião Urbana, Guns ou Nirvana, até conseguir digeri-lo por completo. Posso dizer que foi assim que resolvi a questão das drogas na minha vida. Nunca mais precisei procurá-las.
E se meus heróis morreram de overdose, também descobri pouco depois que meus inimigos estavam no poder. E que pior que os dilemas adolescentes eram as injustiças sociais. Foi quando me apaixonei pelo professor de História cuja inteligência e criticidade me fascinaram. Assim como até hoje me fascinam. Lia todas as suas indicações, começando por ANOS REBELDES, ANOS DOURADOS e passando pelo fatídico BRASIL NUNCA MAIS. Como eu queria ter lutado contra a Ditadura! Jorge Amado entrou nessa fase com CAPITÃES DA AREIA e logo eu mergulhava de cabeça em SUOR, CACAU e GABRIELA. Completei o rol das leituras engajadas com Érico Veríssimo e INCIDENTE EM ANTARES e depois com o fantástico TAMBORES SILENCIOSOS de Josué Guimarães. Eu sonhava um sonho passado: queria uma causa, uma Revolução que já não era mais possível. Eu havia chegado tarde demais para a festa. Era o final dos anos 90. Não havia mais causas para lutar, os tempos eram de tédio absoluto. Kurt Cobain se suicidara de tédio. Renato Russo morreria logo depois. O país conhecia a euforia neoliberal de FHC e ninguém mais brigava por nada. Privatizava-se tudo, era um grande comércio. Axé, Samba, Mamonas Assassinas e crediário em até 12 vezes. Canalizei minha inconformidade para as minhas redações e passei a questionar a escola, os professores e meu pai. Toda forma de autoridade merecia a minha desconfiança. Chamavam-me de petulante, arrogante e insubordinada. Os colegas me achavam estranha e me ignoravam. Fiquei muito só. Vivi tantos conflitos que decidi me calar e esquecer os livros por um tempo. O alheamento foi meu único refúgio e assistir a TV foi a solução. Foi nesse momento que descobri que cada palavra engolida era multiplicada dentro de mim e aquilo que eu tentava abafar para me enquadrar voltaria depois com intensidade dobrada. E foi assim o resto da minha vida.
E vieram os garotos. Depois da leitura de FELIZ ANO VELHO de Marcelo Rubens Paiva descobri que meu primeiro namorado não gostava de meninas. Ele descobriu logo em seguida que a paixão pelo Led Zeppelin não era motivo suficiente para se estar com alguém. E veio o sexo e os livros de Rubem Fonseca se tornaram verdadeiras obsessões. A GRANDE ARTE e BUFO E SPALANZANI me mostraram que amor não é igual a tesão. Descobri que as mulheres também traem e tive certeza de que Capitu traiu Bentinho. Ele merecia ser traído. Foi aí que compreendi meu pai pela primeira vez. Sofri de hipocrisia dissimulada. Sofri de falso moralismo fétido. Sai para beber com Madame Bovary, Ana Karenina, Lady Chatterley e Lolita. Encontrei o submundo de Nelson Rodrigues. Quando a verdade do Casamento me foi apresentada, li Clarice. A Ana de AMOR me estendeu o espelho e vi uma cega mascando chicles. Não teve jeito: tudo aquilo que eu e Ana havíamos minuciosamente organizado na rotina familiar de modo a não deixar espaço para o imprevisto foi para os ares. Mas enquanto a pequena chama de Ana se apagou ao fim do dia, a minha tornou-se um vigoroso incêndio interior. Tive mil epifanias. Adélia Prado não me acalmou. E me vi em meio ao nada. Como Virgínia Woolf, coloquei todas as pedras no bolso e flertei com o precipício pela primeira vez.
Foi aí que ON THE ROAD atravessou meu caminho, percebi que era hora de buscar mais espaço para minhas angústias. Caí na estrada, doei as roupas usadas, deixei as ilusões para trás, fiz a travessia. Reencontrei o Amor e me agarrei com unhas e dentes aos versos de Vinícius “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.” Mas a DIVINA COMÉDIA não poderia imaginar que existiria no mundo um inferno mais dantesco. Eu o conheci de perto. Durante quatro anos tive que engolir uma a uma das minhas palavras, afogar meu senso crítico e ler o mínimo possível em nome da sobrevivência. Não, era muito pior do que o mito de Sísifo de Camus. Conheci Marques de Sade em carne e osso, senti na pele a contundência do adjetivo “sádico”. Senti-me a barata de Kafka, sem esperança de DESmetamorfose. Adoeci, vampirizada por parasitas que insistiam que eu deveria lhes devolver aquilo que nunca tiveram. E se desde O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO de Saramago, minha fé já vinha agonizando, sim a FÉ, porque o meu catolicismo havia ido embora com o Padre-Professor-de-Filosofia-Amante-da-Minha-Vizinha, a psiquiatria terminou por destruir também minhas ilusões científicas. Sem DEUS nem CIÊNCIA, a luz apagou, a festa acabou. No escuro, encarei a face demoníaca da morte pela segunda vez. Deixei a divagação de Hamlet e optei pelo OU NÃO SER da Ofélia.
Ainda não encontrei A TERCEIRA MARGEM DO RIO. Talvez nunca a encontre. Estou navegando no momento e não quero saber aonde isso tudo vai parar. Estou feliz assim.
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