ENTRE BRUXOS, VAMPIROS E SÁDICOS, SEGUIMOS COMENDO BEST-SELLER E LENDO FAST-FOOD
CONFESSO: Comprei e li “50 tons de cinza” no aeroporto do Rio, esperando conexão para Aracaju. Depois de dias a fio dissecando a enfadonha Teoria Literária, decidi que descansaria lendo qualquer coisa “não séria”. Passei em frente à livraria e vi as duas vitrines apinhadas com os dois volumes da trilogia cinza. Lembrei-me de uma colega da Universidade que comentara se tratar de um romance erótico que já havia vendido zilhões. Bem o que eu precisava para me desafogar da ranzinzice- teórica- acadêmica- empata-tesão! Comprei meio constrangida, escondi o volumão na bolsa e procurei um canto meio obscuro e isolado do aeroporto para iniciar a tal leitura pornográfica. RESULTADO: foi mais frustrante que ejaculação precoce. A linguagem, como era de se esperar, paupérrima, com a repetição exaustiva e irritante de algumas expressões “sexo baunilha”, “muita areia pro meu caminhão”. No lugar da perversão esperada, um romancezinho açucarado entre uma semi-adolescente, estudante de literatura, e que, por isso mesmo, deveria ter mais imaginação e um jovem empresário rico, paranoico por controle, e que, previsivelmente, só obtém prazer por meio do exercício de poder total sobre a parceira. Em resumo, a relação entre um sádico e uma semi-analfabeta em desejo que não conhece o próprio corpo de modo que qualquer toque já é uma descoberta.
Tive a impressão de que 50 TONS DE CINZA faz parte de uma saga maior: é a continuação de um projeto de esvaziamento crítico e intelectual de uma geração que cresceu lendo trilogias best-sellers e comendo fast-food. Ou seria comendo best-seller e lendo fast food? É fácil imaginar as fãs de 50 TONS como as mesmas que cresceram com o maniqueísta Harry Potter, já na adolescência se apaixonaram pelo romântico vampirinho de Crepúsculo, agora descobrem o prazer adulto com o excêntrico Christian Gray. Bruxos, vampiros e sádicos compõem o quadro de formação literária dessa geração. E antes que me atirem algum volume desses na cabeça, quero dizer que também gosto de fast-food. Adoro cheese burguer, batata frita e refrigerante, mas sei que meu corpo precisa mais. Sei também que quando abuso desses alimentos é natural que o organismo passe a querer consumi-los cada vez mais. É sabido que o mundo todo teve seus paladares padronizados pelo fast-food e a inteligência uniformizada pelas trilogias (50 TONS comprova isso mais uma vez). Não há nada de errado em comer batata frita nem em ler 50 tons de cinza. O problema é imaginar que tudo deva ser semelhante a isso e que tanto corpo como mente se sustentarão com apenas um filão das possibilidades existentes. Isso é errado e acontece.
Como professora de literatura sei o quanto é desgastante ter que convencer adolescentes e jovens que uma leitura clássica assim como uma salada podem não ter gosto de hamburguer e Harry Potter mas são muito saudáveis e nutritivas para corpos e mentes. É desolador levantar a bandeira da necessidade de refinamento do paladar e da leitura, principalmente, quando existe um bando de “pseudo-especialistas” de revista Veja afirmando que qualquer leitura é válida. Perdoem a analogia barata, mas se qualquer leitura é valida então qualquer comida alimenta. Vivamos, assim, de best-seller e fast-food.
Quanto a minha tentativa de leitura erótica, descobri que, pelo menos dentro da minha órbita, o que não me excita o intelecto, também não excita o corpo. Infelizmente.
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