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A ÁRVORE DA VIDA: REFLEXÕES METAFÍSICAS


O filme A árvore da vida (2011) do diretor Terrence Malick organiza uma reflexão cosmogônica centrada na alegoria religiosa homônima que corresponde à “árvore do conhecimento” cujos frutos foram proibidos de ser consumidos pelo homem, na narrativa bíblica do gênesis. O filme é aparentemente irregular, descontínuo, optando pela não-linearidade temporal e prescindindo de conexões lógicas de causalidade. Sua apresentação é organizada em uma estrutura poética, cujas relações entre os fatos são captadas de forma estética, por meio de associações imagéticas, rítmicas, sonoras, e conceituais, mas sem afirmações diretas e rigores silogísticos. Devido a essa estrutura não-convencional, o filme recebeu a Palma de Ouro em Cannes (2011), mas foi rejeitado por grande parte do público.

A obra de Malick pode ser apreendida em três momentos aparentemente autônomos, mas que se relacionam numa cosmogonia totalizadora. Trata-se, num primeiro momento, do resgate memorialístico de Jack, filho mais velho dos O’Brien, uma família americana típica dos anos 50. Confrontado pela morte do irmão mais novo, Jack adulto mergulha no passado, no universo das tensões familiares, buscando compreender como assimilara os valores conflitantes do pai e da mãe. Jack mantinha uma relação ambígua no limiar do amor e do ódio com o pai, de quem dependia mas cuja aspereza o exortava. Os ensinamentos do pai, em confronto com os a mãe, ensinavam ao garoto o valor da força, da esperteza e da determinação. Pode-se dizer que o leque valorativo do pai corresponde aos valores humanísticos e individualistas que gozam de amplo prestígio e são o fundamento da sociedade norte-americana. O livre-arbítrio, o poder das escolhas, a força do indivíduo em detrimento do coletivo são o baluarte da visão de mundo que o pai se esforça para repassar a Jack. Já a mãe tenta lhe ensinar o caminho da Graça, das forças supra-individuais, da solidariedade, da caridade e da bondade, em suma, os valores religiosos.


Paralelo às indagações de Jack, Malick intercala belíssimas imagens da origem do mundo segundo a teoria do Big-Bang. A gesta do universo desde a grande explosão, passando pela formação das galáxias e a evolução das espécies é acompanhada de imagens poéticas e música sacra (“Lacrimosa 2” de Zbigniew Preisner que é um lamento pela perdição do homem e uma oração pedindo misericórdia.) As temporalidades do cosmos e da memória de Jack são, então, convergidas para um ponto comum: um tempo-zero, uma espécie de apocalipse em que o protagonista adulto encontra o protagonista criança, pai, mãe e irmão morto são todos reencontrados num espaço em que não se distingue passado, presente e futuro, uma quarta dimensão. Tal dimensão pode remeter tanto para o depois da morte quanto para antes de tudo, é o conhecimento divino, sublime da árvore da vida, é a máquina do mundo aberta.

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