Não sou o tipo de pessoa que acredita em poder do destino, forças ocultas, lances de sorte e as demais variações do leque da superstição . Mas há alguns fatos que convergem em tempo e espaço paralelos e que nos permitem interpretá-los de modo mais transcendente. Acho que é isso que aconteceu comigo. É isso que vou contar.
O GAROTO
Há algumas semanas, minha mãe que é enfermeira em um grande hospital aqui da cidade vem me relatando o caso de um garoto enfermo, que se encontra sob seus cuidados. O menino tem uns 12 anos de idade e um câncer... em estado terminal. Por não ter sido diagnosticado a tempo, a doença se alastrou à vários órgãos, portanto, não há mais panacéia milagrosa que o consiga resgatar da tortura de sentir seu corpo se deteriorando e apodrecendo aos poucos, a vida se esvaindo a conta-gotas. O espetáculo da vulnerabilidade humana em toda a sua grandiosidade tem sido assistido, diariamente, tanto pela família como pela equipe médica que o atende. Isso não é incomum para minha mãe, que lida com os subprodutos da morte há, pelo menos, 30 anos. Contudo não é natural, sobretudo, em se tratando de uma vida tão incipiente.
Assim, por sucessivos dias, continuei a ouvi-la narrar a humilhação que sentia diante da impotência médica em poder suavizar aquele sofrimento. O garoto soltava gritos lancinantes , contorcia-se na cama, agarrando os lençóis com as unhas e mordendo o travesseiro de dor. Implorava por remédio, no caso, morfina. Ocorre que, para um corpo infantil e já bastante debilitado as doses de morfina devem ser muito bem equilibradas para que o antídoto não se transforme em veneno e o garoto acabe morrendo por excesso do medicamento. Os médicos aumentavam a quantidade de morfina, sutilmente, todos os dias e a minha mãe temia. Temia que poderia ser ela a portadora da injeção letal. O anjo da morte. Eu que sempre escuto esses relatos da minha mãe com certo distanciamento, para me proteger mesmo, senti uma certa comoção pelo trauma. Pensei em como eram irônicas essas forças irascíveis da natureza que debocham das nossas pretensões arrogantes de controle de tudo.
O CORAL
Na mesma semana, com a intenção de praticar algum exercício, saí numa manhã iluminada em direção a um dos parques da cidade. No caminho, estava a minha velha escola. O colégio mais antigo e tradicional da localidade. São três quarteirões inteiros de espaço interno, muitas árvores, grandes campos, quadras, teatro e o o perfume inconfundível dos eucaliptos. Ali estudei durante alguns anos e logo depois de formada, lecionei literatura por mais três. A memória não tardou a convocar a nostalgia e, em instantes, eu revivia os momentos bons vividos naquele espaço.
Entretanto, o que me capturou mesmo o olhar foi a linda, embora modesta, decoração natalina e a faixa, amarrada junto à entrada, anunciando o ínicio da atividade do coral de natal. O velho coral ainda existia! Em detrimento dos espetáculos natalinos caros, shows pirotécnicos, papai-noel paraquedista e toneladas de iluminação, essa escola (particular) opta por uma comemoração discreta, sem estardalhaços comerciais: o pequeno coral itinerante. Um grupo de professores e alunos ensaiam durante todo ano, sob o comando do velho mestre César, as músicas que serão lindamente cantadas nos hospitais da cidade e no lar dos idosos. O restante das turmas(os que não cantavam nada como eu) se encarregavam de preparar as lembrancinhas que seriam entregues pelos visitantes: bombons, balas e cartinhas de feliz natal feitas e decoradas por nós mesmos. Senti uma enorme vontade de ouvir o coral novamente.
A vontade foi sendo atropelada pela urgência, continuei a caminhada e tratei de me concentrar nos preparativos de mais uma mudança de cidade. Isso em menos de seis meses.
OS ÓCULOS
As vésperas da minha viagem, arrumando as malas, selecionando aquilo que eu poderia levar e o que deveria deixar (não aguento mais deixar minhas coisas pra trás), pensando nos míseros 23 quilos de tolerância no peso da bagagem, deixando roupas para poder levar mais livros, quando toca o celular. Era a minha mãe do hospital. Esqueceu os óculos, precisava que os levasse para ela, do contrário não poderia trabalhar.
Não foi sem certo aborrecimento que larguei aquela bagunça para atender ao pedido materno. Afinal, é um pedido materno. E mãe é...mãe, não é? Entrei no hospital já com os óculos na mão, conhecendo o caminho, avisei a recepcionista que eu mesma encontraria a enfermeira que era minha mãe. Dobrei um corredor à direita, outro à esquerda. Por que os hospitais parecem labirintos? Ao chegar ao segundo pavimento já conseguia ouvir o som. Uns passos à frente, distinguia a melodia inconfundível. ERA O CORAL DA ESCOLA. Precipitei-me na direção da música, quase nem vi a minha mãe que já vinha em minha direção, seguida pelo grupo dos cantores. Depois de uma apresentação única no salão de brinquedos, eles passariam agora nos quartos dos enfermos que não têm mobilidade ou condições de sair de suas camas.
Em segundos, entreguei os óculos para minha mãe e cumprimentei o mestre César que ainda se lembrava de mim. Estávamos em frente à porta 304. O grupo do coral, impecavelmente paramentado, os músicos, as flautas, o violino... que lembrança aconchegante! Antes de o grupo adentrar o 304, minha mãe explicou a César a gravidade da situação do paciente. Era o garoto, com câncer, em estado vegetativo. Louca de vontade de ver a apresentação, nem hesitei em entrar junto com o grupo no quarto...
A INCIDÊNCIA DOS TEMPOS
Um ambiente mórbido, sem dúvidas, era o quarto do garoto. Sua mãe nos recebeu sem muita empolgação, naquele estado de incredulidade e fúria que ficam os seres humanos diante do inexorável, o imponderável da vida. Na cama, um corpinho mofino, pálido, encolhido por entre os lençóis. Uma dor indescrítivel se desenhava no contorno de sua boca e no apagado brilho dos seus olhos.
Cheguei a pensar que aquilo não daria certo. Mas o grupo não oscilou, em pouco tempo, a música invadia o ambiente e expulsava a sombra da morte que ali pairava. Um canto limpo e sincero, saído direto da alma. Outros contornos começaram a se desenhar na pequena face lúgubre... em instantes...um pequeno e pálido sorriso se esboçou. Logo, se transformou em um sorriso guerreiro, sobrevivente à dor. Quando lhe entregaram a pequena cesta de chocolates, o brilho reapareceu em seus olhos e a risada respondeu aos gracejos de um dos participantes do coral.
Eu fazia um esforço brutal para segurar minhas lágrimas. Percebi que quase todos no quarto estavam no mesmo desafio. Ele sorriu para os chocolates, segurou-os entre os dedos magros, como um presente divino, mesmo sabendo que nunca mais poderia comê-los. Ele tinha câncer... no esôfago... já dispunha de alimentação parenteral.
Sai imediatamente do quarto, antes de todos, minha mãe veio logo atrás. Já no corredor, não pudemos conter o choro convulso. Choramos por ele. Choramos por nós, pelas dores dele, pela nossa despedida, pela nossa infinita solidão. Uma verdadeira catarse diante do espetáculo de vida e morte.
Jhonathan veio a falecer nessa mesma madrugada. Aquele fora realmente o derradeiro sorriso, com o qual se libertou dos grilhões da vida e da dor. Quanto a mim, Jhonathan, levo seu sorriso como amuleto para a minha nova jornada. Aquele instante em que o passado, o presente e o futuro convergiram a a partir de seu sorriso ficará para sempre confiscado em minha memória. Assim me despeço...
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