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EU QUIS NÃO ESTAR MORTA HÁ UM ANO PARA ESTAR AQUI HOJE



Mas eu estava. Completamente morta sobre uma cama de hospital. Rasgada em mil pedaços. Isso não é uma novidade para ninguém. A questão é que durante todo esse período muito se falou a respeito do ocorrido, cada um se apropriou do fato a sua maneira e elaborou os juízos que julgou pertinentes. O meu objetivo aqui hoje é único: A VOZ AGORA É MINHA. Sinto-me no direito de dar a minha voz a minha própria história. Isso para que eu possa fechar esse ciclo de uma vez por todas e jogar a chave fora.
Muita gente, sobretudo hoje, preferiria que eu estivesse morta. Mas não se preocupem. Procurar culpados e execrá-los, puni-los exemplarmente é uma estratégia de vocês, não minha. Eu prefiro refletir de modo conjunto e tentar inventariar os fatores podem levar uma pessoa a buscar a própria morte e outras a exercerem o poder de modo irresponsável e brutal.
A grande questão minha, no fundo, foi sempre com as PALAVRAS. Cresci em um lar humilde mas que me deu a oportunidade de ser um ser pensante e de me expressar, de questionar e de entender o funcionamento das linhas de força do mundo. Meus pais nunca foram autoritários mas sempre tiveram autoridade. Nunca tentaram abafar a minha voz e eu cresci muito livre nesse sentido. Sem irmãos e com muitos livros, logo me fiz amiga das palavras. Gostava de ler, escrever e expor os meus pensamentos. Escrevi dois livros na quarta série e todos esses autores que nossos alunos morrem para ler, eu já os conhecia antes do ensino médio. Digo isso para ressaltar as razões pelas quais eu segui a carreira das Letras e com muito orgulho permaneço e me aprofundo nela até hoje. Também para compreender porque quase morri quando tive que engolir uma a uma das minhas palavras e enterrar meu senso crítico em nome da sobrevivência. Adoeci profundamente e quase apodreci.
Tudo isso porque um dia resolvi colocar as minhas coisas num carro, abandonar a cidade em que cresci, e tentar outras oportunidades. Eu tinha um mestrado quase na mão e muitas ideias na cabeça. Acreditava nas pessoas e mim mesma. E essa virada me trouxe muitas coisas boas: conheci pessoas ímpares e reencontrei o amor. Um amor que amava as palavras, que vivia delas como eu. Era a união perfeita, alguém que me entenderia como nunca. Disse-lhe que não me importava com erros passados, não sou hipócrita e odeio moralismo. Ele era livre (me certifiquei disso) e eu também. Reunimos nossos sonhos e fomos tentar ser felizes. E fomos. Mas vampiros sempre existem. A princípio tentei ignorá-la. Mas o jogo começou a ficar baixo e aí percebi o quanto a maternidade pode ser cruel e sórdida quando se vale do sequestro emocional como arma para garantir seus próprios interesses. Sou mulher e posso dizer: as mulheres podem ser os piores seres do universo quando manipulam a natureza a favor de si mesmas. É jogo sujo. Contraí uma dívida: queriam me obrigar a devolver aquilo que nunca tiveram, e pior: que eu não tinha também. Mas eu amava e tive que engolir muitas palavras em nome desse amor. Ele me pedia paciência e dizia que o fim era uma questão de tempo. Mas eu adoecia.
Como não bastasse ser alvo de perseguições gratuitas, ter meus colegas chantageados para que não se aproximassem de mim, eu via demonstrações boçais de poder por todo lado. Tentei fugir várias vezes mas me dei conta de que estava amarrada: ou eu ou quem eu amava. Engoli mais palavras e muitas injúrias. O pior é que eu já não produzia nada, tudo esbarrava numa má vontade absurda e eu passei a desacreditar em mim. Jogava o jogo sujo e havia me tornado tão abjeta quanto tudo aquilo que eu criticava.POR ISSO NÃO CONDENO NINGUÉM. Mas o que mais me arrasava é ver o sofrimento de quem eu amava, eu me machucava muito quando o via cruzar a porta de casa totalmente DERROTADO. Colecionei relatos absurdos que poderiam compor um livro de Edgar Allan Poe.
Desenvolvi Síndrome do Pânico. Uma doença terrível que te põe de cara com a insanidade. Eu definhava a olhos vistos e aos olhares regozijantes de alguns. Vampirizada por parasitas, eu me arrastava e chafurdava na lama.
E no dia 13 de setembro do ano passado veio o golpe de misericórdia. Alguém me chamou e disse que eu estava MORTA. Assim, com todas as letras: V-O-C-Ê E-S-T-Á M-O-R-T-A. É muito cruel dizer para alguém que já morreu que esse alguém está morto. É como chutar cachorro morto. E a maldade não está na gratuidade do ato mas no fato de o cadáver não poder mais reagir. Fui para casa, olhei-me no espelho e constatei a obviedade da notícia. Eu não só estava morta como já apodrecia. Sentia náuseas profundas ao ver meu rosto desfigurado. Eu havia me tornado um espelho de tudo aquilo mais execrava: conivente com injustiças, alheia a mentira, brutalmente emburrecida, uma mercadoria barata, medíocre. Resolvi que tinha que acabar de uma vez com aquilo. Foi assim que me feri por fora para amenizar o que sentia por dentro. Como foi aliviante ver escorrer sobre a pele tudo aquilo que estava sufocado dentro de mim há pelo menos quatro anos.
Mas eu acordei. Já estava num pronto socorro sendo costurada como um pano de chão. Era meu aniversário. ERA 14 DE SETEMBRO DE 2011. O maior desespero é saber que o fim não é o fim mas uma continuação do inferno. Quando olhei melhor, vi os olhos do meu amor sobre mim. Ele chorava e sofria muito. Eu sofria também porque nunca quis que ele chorasse. Mas eu não tinha mais forças. Então ele me abraçou e disse que o pesadelo havia terminado. Que eu não passaria mais por aquilo e que nossa liberdade estava há um passo. Confesso que fiquei cética por um tempo.
As feridas externas cicatrizaram, as internas ainda doem. Mas nada melhor do que morrer para nascer outra e voltar a sonhar. Neste ano, a ruptura total com a opressão, com o desmando, com o podre poder aconteceu. O amor triunfou. Choro ao escrever isso. Mas liberdade também é uma coisa que se aprende. Minhas palavras hoje fluem com leveza e não mais se escondem. Sinto-me leve e muito livre. Vocês podem me chamar de romântica, mas eu digo: NÃO HÁ DINHEIRO NESSE MUNDO QUE PAGUE A LIBERDADE, A PAZ DE DEITAR A CABEÇA AO TRAVESSEIRO E SONHAR. Pode parecer clichê, mas quem disse que os clichês são mentirosos?
O que fica de tudo isso? O que quero compartilhar com vocês meus amigos e também inimigos: ATUTORITARISMO DESTRÓI A INTELIGÊNCIA, APAGA A CRIATIVIDADE, INSTAURA O MEDO E INCENTIVA A COVARDIA. Ambientes opressivos geram puxa-sacos, idiotas e capachos. COMPROMETEM A ÉTICA PROFISSIONAL , destroem auto-estimas e te fazem acreditar que não existe OUTRO MUNDO. É isso que eu preciso dizer: TENTEM OLHAR ALÉM DA CORTINA DE FUMAÇA QUE COLOCARAM PERANTE SEU OLHOS, o mundo é grande, muito grande e vocês assim como eu SÃO CAPAZES. O CAPITALISMO JÁ PODE SER CIVILIZADO.
Quanto a mim, fechei agora, como disse no início, esse ciclo de mudanças. Ainda faltava passar a régua e fechar a conta. Acabei de fazer isso. Um beijo a todos aqueles que se importaram e torceram por mim. Entendo o silêncio público de vocês, sei que não podem se manifestar. JÁ A MINHA VOZ, NÃO TENTEM MAIS CALAR.

Alessandra Valério
14/09/2012
Agora com 32 anos e muita vida pela frente.

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Sim, muita coisa linda pela frente profe. Muito amor para vocês dois. Deus abençoe você sempre. Confesso que me identifiquei com algumas coisas, e claro me emocionei. Beijão e também um obrigada.

    Marlene.

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  3. Ale, apesar de distante, sempre tinha notícias suas e torci muito para que superasse os momentos difíceis. E com este belo texto percebo que você está conseguindo renascer... Seja bem vinda e decole, voe o mais alto que puder, pois você merece, muito, ser feliz e soltar a sua voz: GRITE, ESBRAVEJE, FAÇA ECOAR suas ideias... Bjo

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  4. Parabéns pela força e garra, não é fácil se livrar da covardia de certo grupo educacional.

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  5. Eu também tive a infelicidade de conhecer bem de perto esse autoritarismo através de um "cala-te boca" bem público e, logo após "falar demais", fui demitida. Se eu passasse 4 anos sendo censurada, certamente ficaria doente também!

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